Cloud Computing como Utility

Recebi um email interessante. Nele, um colega me perguntava porque Cloud Computing pode ser considerado similar a energia elétrica e que argumentos existem para demonstrar que Cloud Computing pode ser visto como uma utility.  Este assunto já foi debatido no livro de Nicholas Carr, “The Big Switch”, onde o autor faz uma boa analogia entre Cloud Computing e  a energia elétrica. Vale a pena a leitura.

Mas, podemos ir mais à frente e analisar quais os pontos em comum entre um serviço de utility como energia, água e telefonia e a computação em nuvem. Quais são as características básicas de um serviço de utilidades? Vamos olhar água, energia e telecomunicações como exemplo.

 Logo no início lembramos da alta dependência do serviço. Não podemos viver sem água ou energia. Basta ver os efeitos de um apagão elétrico na sociedade, os transtornos que causa. Outra característica é a confiabilidade no serviço. Água, por exemplo, ao abrirmos a torneira nossa expectativa natural é que a água caia. Não se espera que o serviço não esteja disponível. Usabilidade é outra característica. Uma torneira é muito fácil de usar. Uma tomada só necessita que se conecte  o plug do aparelho elétrico. Um celular é algo que uma criança de dois anos sabe usar para fazer uma ligação. E, outro aspecto relevante é a elasticidade. Pagamos estes serviços pelo que consumimos e sabemos que podemos consumir mais ou menos. Podemos consumir muita energia no verão carioca, com aparelhos de ar condicionado ligados 24 horas e deixar a casa às escuras quando saimos em férias.

 Para o provedor existe uma outra característica relevante que é o nivel de utilização. Ele precisa gerenciar os picos e vales pois as demandas dos usuários dos serviços de utility flutuam amplamente no tempo. Se ele mantiver uma infraestrutura configurada para  a demanda de pico vai arcar com um custo elevado. Por outro lado, se a infraestrutura for insuficiente, não irá atender à crescimentos rapidos da demanda.

 E quanto aos modelos de negócios? Basicamente as utilities cobram pelo uso (pay-as-you-use), como água e energia, ou por assinatura, como provedores de banda larga, que ofertam serviços ilimitados mediante assinatura mensal.

 Se analisarmos, para efeito de comparação, o modelo SaaS, vemos muitas similaridades com o negócio das utilities, principalmente telecomunicações. Algumas métricas das telco como ARPU (Average Revenue Per User) e churn rate ou taxa de desconexão começarão a fazer parte do vocabulários das empresas de software. A preocupação em não perder o cliente deverá ser alta, pois é muito mais caro adquirir um novo cliente que mantê-lo dentro de casa, como as operadoras de celular já descobriram. Mas, como isto tudo impactará as empresas de software? Em um primeiro momento os custos de marketing e vendas das empresas SaaS tendem a ser maiores que no modelo tradicional, basicamente devido ao fato que o modelo de assinatura (subscrição) produz receitas menores durante a fase de crescimento, por que os pagamentos são distribuidos por um período bem longo de tempo, ao invés de imediatamente, como no modelo de compra de licenças de uso. Além disso, muitos dos clientes SaaS atuais são empresas de pequeno porte, que geram receitas ou tickets médios menores que os comumente encontrados nas vendas da maioria das empresas de software tradicionais, que concentram sua atenção nos clientes de maior porte. O modelo SaaS permite a adoção pela indústria de softrware do conceito de Long Tail ou cauda longa.

 SaaS indiscutivelmente provocará mudanças na indústria de software e se o juntarmos com o conceito de Long Tail, vamos identificar novas e inovadoras oportunidades de mercado. O conceito da Cauda Longa ficou muito conhecido com o livro de Chris Anderson (“A Cauda Longa”), que resumidamente nos diz que muitos negócios baseados na Web obtém uma parcela significativa de sua receita, da venda cumulativa de um grande número de itens, cada um dos quais vendido em pequena quantidade. É um modelo econômico que contrasta com os negócios tradicionais, onde as limitações físicas das lojas impõem que estas vendam apenas uma variedade bem limitada de itens, mas que devem ser vendidos em grande quantidade. O modelo tradicional é “hit-based” ou de produtos blockbusters. Para se encaixar no Long Tail um mercado deve atender a alguns requisitos, como o valor total da cauda deve representar uma parcela significativa do mercado. No software vemos que ainda existem muitas e muitas empresas, principalmente as pequeno porte, que não adotam alguns softwares pelo seu custo de aquisição de licenças e pela necessária demanda de hardware que vem junto com o software. Esta parcela do mercado representa um pedaço substancial do mercado como um todo.

 À medida que o mercado SaaS for sendo ampliado, a lucratividade das empresas deste modelo tenderá a aumentar, pela própria escala do negócio. Também veremos novas e inovadoras aplicações voltadas para explorar este modelo. Hoje as aplicações SaaS tendem a replicar a funcionalidade dos sistemas on-premise, levando para a nuvem o que já é comumente feito nos servidores dos data centers internos das empresas. No futuro as aplicações explorarão de foma mais abrangente as potencialidades do modelo de nuvem computacional.

 Um primeiro exemplo de novas e inovadoras aplicações poderão ser encontradas na área de segurança de TI. Segurança e privacidade aparecem em primeiro lugar quando se fala em Cloud Computing. O modelo atual de segurança é basicamente sustentado pelo conceito de perímetros de defesa, com pontos de controle na entrada (contra invasões) e saídas da informação, como vigilância do conteúdo de email e canais de acesso à Web. O modelo Cloud Computing afeta este conceito, pois o perímetro deixa de existir. Assim, a segurança poderá ser embutida no proprio dado, através de criptografia, e não mais pelos controles nos pontos de entrada e saída dos perímetros de defesa. A virtualização, base do modelo de computação em nuvem, também é um novo desafio, pois a comunicação entre máquinas virtuais ocorre sem passar pela rede física de comunicações. Geralmente as tecnologias de segurança atuais adotam controles de monitoração das atividades das redes fisicas, inspecionando e filtrando o tráfego de dados. Como a comunicação entre as máquinas virtuais não toca esta rede física, o modelo em nuvem demandará novos conceitos e tecnologias.

 Que podemos concluir? Sabemos que hoje em dia não precisamos de equipamentos para gerar nossa própria eletricidade. Nós apenas plugamos os aparelhos às tomadas. Também apenas abrimos as torneiras para termos água e não precisamos de bombas e poços artesianos em cada edifício. Porque a computação não pode ser uma utility também? Já é altamente relevante para a sociedade, espera-se que os sistemas estejam sempre disponíveis e sejam de fácil utilização. Por que não podemos plugar um dispositivo  e ter acesso à aplicações, dados e serviços de computação? E pagar apenas pelo que usamos, sem necessidade de arcar com elevados custos de capital? À medida que os consumidores de TI sentirem-se cada vez mais frustrados com o tradicional ciclo de compras de licença de software, pagamentos por contratos de manutenção, e caros e demorados upgrades de versões, este modelo tenderá a se disseminar. Portanto, o modelo de computação em nuvem não é um buzzword, mas uma mudança significativa no modelo computacional, com impactos na indústria de TI como um todo.

 Claro que sair do modelo atual (ownership model) para o modelo pay-as-you-use não é feito de um dia para o outro. É uma quebra de paradigmas e toda quebra de paradigmas não flui de maneira suave, mas  enfrenta resistências e questionamentos. Mas, na minha opinião, a visão do futuro, onde o modelo dominante será a computação em nuvem, já está tomando forma. À cada dia vemos mais e mais ofertas aparecendo no mercado  e mesmo empresas líderes do modelo de propriedade estão aos poucos embarcando neste cenário. Portanto, é uma questão de tempo de não de “se” a computação se tornar uma utility.

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