Cloud como estratégia de negócios

A adoção de cloud computing começa a se acelerar no mundo inteiro. Mas as primeiras experiências já apontam que uma substituição completa do modelo tradicional pela computação em nuvem não acontecerá no curto prazo. Por outro lado as razões iniciais que incentivam a adoção de cloud, como redução de custos, começa a ser substituída pela agilidade com que o negócio passa a dispor quando usando este modelo para criar novos e inovadores processos e aplicações.

O modelo de computação em nuvem está apenas começando a impactar as empresas e a própria indústria de TI. Mas ainda desperta desconfiança e muitas empresas aguardam cautelosamente que os “early adopters” mostrem o caminho. É normal este cenário. Afinal, muita coisa se disse sobre o modelo distribuído, que usamos atualmente, e nem tudo prometido aconteceu realmente. Aliás, fazer previsões é sempre arriscado. Tem uma frase emblemática do prêmio Nobel de Física, Niels Bohr que disse “Prediction is difficult, especially about the future”. E volta e meia nos deparamos com previsões furadas, como “Quando a exposição de Paris se encerrar, ninguém mais ouvirá falar em luz elétrica.” (Erasmus Wilson, Universidade de Oxford, 1879) e “A televisão não dará certo. As pessoas terão de ficar olhando sua tela, e a família americana média não tem tempo para isso.” (The New York Times, 18 de abril de 1939, na apresentação do protótipo de um aparelho de TV).

Por que estas coisas são ditas? São pessoas ignorantes? Não, são cientistas e profissionais bem preparados. A questão é que partem de pressupostos errados. Lembro aqui uma histórinha interessante. Em 1886, Gottlieb Daimler tinha acabado de desatrelar os cavalos de uma carruagem e instalar um motor atrás dela. Criou o primeiro automóvel (ou carruagem sem cavalos). A empresa dele se juntou à de Karl Benz e no começo da década de 1900, tentaram prever o tamanho do mercado mundial para estes então fumacentos e barulhentos veículos. Depois de uma análise cuidadosa previram que no próximo século haveria em torno de um milhão de carros em uso no mundo inteiro. Mas, esta previsão, audaciosa para a época, se mostrou totalmente equivocada. Em 2000 haviam mais de 600 milhões de carros no mundo! Era uma previsão de longo prazo, sujeito a intempéries, mas mesmo assim erraram por um fator de mil. Por que? A suposição que usaram estava errada. Eles previram que em cem anos a população mundial de motoristas profissionais seria de cerca de um milhão e esta seria a limitação ao crescimento no uso das carruagens sem cavalo. O pressuposto era que todo carro precisava de um motorista profissional, como na época. Não foi o que aconteceu. Qualquer um pode dirigir um carro.

O mesmo acontece quando olhamos cloud computing pela ótica do modelo atual de TI e nos prendemos a visualizar este modelo como uma simples modernização do outsourcing. Mas, a possibilidade de uma empresa criar novos processos e mesmo negócios sem esperar pelo ciclo tradicional de TI, e mesmo sem maiores investimentos em capital, mas apenas em custos operacionais (opex) abre novos e inovadores espaços a serem explorados. Cloud pode ajudar a transformar o próprio negócio. Portanto, o modelo de computação em nuvem não deve ser visto únicamente pela ótica da tecnologia, mas como um meio estratégico de alavancar novos negócios.

Entretanto, a mudança não ocorrerá por um “big bang”, mas de forma gradual. Existem ainda barreiras no caminho e aspectos legais e de compliance ainda criam riscos para o negócio. Muitos dos provedores não tem soluções completas e as experiências práticas bem sucedidas ainda são cases de mídia. Por outro lado, ficar sentado e esperar as coisas acontecerem pode deixar passar ao largo boas oportunidades de vantagens competitivas. Além disso, falando francamente, os data centers de alguns provedores globais de cloud são muito mais avançados e seguros que a maioria dos data centers das empresas. Então, o que fazer?

Na minha opinião as empresas devem olhar cloud pela ótica da estratégia do negócio e começar a experimentar este modelo. Se a organização já tem familiaridade com outsourcing, cloud passa a ser uma extensão natural de sua TI. O modelo híbrido, onde aplicações on-premise convivem com nuvens privadas e nuvens públicas será o caminho natural para muitas empresas. Expandindo os sistemas atuais para operar em nuvem, mantendo ainda os dados mais sensíveis dentro de casa é um bom caminho. Desta maneira ganha-se experiência e aos poucos descola-se do modelo tradicional e cloud passará a fazer parte do DNA de TI da empresa.

A velocidade de adoção da computação em nuvem vai depender da cultura e do setor de indústria de cada companhia. Existem setores mais regulados e empresas mais agressivas em adotar inovações. Não existe uma receita única e pronta que se adapte todas as organizações. Por exemplo, uma empresa pode começar por colocar a maioria dos sistemas não-ERP em nuvem e com isso, ao mesmo tempo que reduz seu custo operacional, pode conseguir de imediato uma maior agilidade para novas demandas de TI por parte dos usuários. Mas, os resultados não virão apenas com adoção tática de cloud. É fruto de uma combinação da reorganização de TI, de pensar de forma mais ágil (agile development) e não se ater a atividades operacionais básicas, padronizando e automatizando seu ambiente operacional (cloud computing).

Bem, algumas sugestões:

a) Entenda a natureza do modelo de computação em nuvem e como explorar este novo modelo com novas aplicações. Não pensar em usar as nuvens apenas para fazer a mesma coisa que se faz hoje.
b) Pense nuvem arquitetônicamente ou seja, não pense em peças tecnológicas isoladas, mas visualize seu futuro ambiente em nuvem, analisando aspectos de segurança, interoperabilidade e agilidade nos processos de TI.
c) Adote cloud computing como seu modelo de design de aplicações para novos e inovadores sistemas. Mas conserve os dados mission-critical dentro de casa, pelo menos por enquanto.
d) Crie um modelo de governança de TI (politicas, procedimentos e padrões) que englobe cloud e não esqueça de colocar análises de risco nas decisões de usar cloud para as aplicações que requerem certificações como SAS70, HIPAA, etc, e niveis de serviço extremamente rígidos.
e) Não espere que o modelo amadureça. Comece a experimentar em workloads especificos e menos críticos. Embora cloud ainda seja imaturo e primitivo comparado com daqui a cinco ou dez anos, já permite fazermos muitas coisas interessantes. Um exemplo? Que tal BI em cloud? É perfeitamente prossivel construir uma plataforma em cloud pública para demandas de business analytics, provavelmente a uma fração do que custaria construir o ambiente dentro de casa.
f) E finalmente, tenha uma atitude “open-minded” em relação a cloud computing.

4 Respostas to “Cloud como estratégia de negócios”

  1. Fernando Says:

    Muito boa sua reflexão e visão. Gostaria de saber se você teria alguma referência bibliográfica que pudesse fortalecer esta tendência e justificar sua opinião. Obrigado!

  2. ctaurion Says:

    Oi Fernando, existe muita discussão sobre o assunto e muitos analistas de industria como Gartner, Forrester e Saugatuck debatem o futuro e as tendências da computação em nuvem.

  3. Fernando Correia Says:

    Me chamou atenção principalmente o destaque para a agilidade que o modelo cloud pode trazer aos negócios. Vamos precisar a aprender a pensar de outro modo. Não adianta pensar na nuvem apenas como um datacenter remoto.

  4. Solano Says:

    Cezar,
    quero saber se tem interesse em ministrar uma palestra sobre Cloud Computing para universitários que cursam sistemas de informação.
    Caso tenha interesse envie um e-mail.
    Aguardo,

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