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Email em nuvem: quando e como?

agosto 27, 2010

Nas minhas palestras e reuniões com diversas empresas venho observando que Cloud Computing já começa a se posicionar no radar dos executivos e fazer parte de seus planos de médio e longo prazo. E uma das questões que estão em busca de resposta é “por onde começar?”. Que tipo de aplicações colocar inicialmente nas nuvens?

Bem, muitos estão pensando em começar por  “client in the cloud”. É um cenário que já é comum no ambiente de usuários finais, que já usam regularmente Yahoo!Mail, Gmail, Google Docs, Facebook, Flickr e outros serviços disponíveis em nuvem. Armazenar caixas postais, textos, fotos e vídeos em nuvem e acessá-los por qualquer dispositivo, sem estar preso aos discos internos de um único computador é um atrativo que atrai mais e mais usuários finais.

Me parece claro que este cenário pode e provavelmente será disseminado também no ambiente corporativo.

Vantagens? Acessar seus dados de qualquer dispositivo, seja de um veterano desktop a um smartphone ou tablet, pouca ou nenhuma demanda por desgastantes e pouco produtivos trabalhos de implementar e atualizar diversas versões de softwares, que vão de sistemas operacionais a suites de escritório em centenas ou milhares de máquinas,  obter uma gestão centralizada dos aplicativos que rodam nos dispositivos cliente e, além de tudo, saber que se um laptop for perdido ou roubado, os dados estarão a salvo, pois não estão armazenados nele, são pontos extremamente positivos que despertam muito interesse. 

 O ponto de partida para se pensar em “client in the cloud” é o onipresente email. Uma das principais razões para se pensar em email na nuvem são as significativas economias de escala que se consegue com este modelo computacional. A maioria das empresas não tem mais que centenas ou milhares de usuários, enquanto um provedor de nuvem pode fornecer estes serviços para dezenas de milhões de usuários. Assim, com data centers com “lights-out operations” e imensa capacidade de processamento e armazenamento conseguem ofertar serviços de email a preços muito baixos, chegando no limite a zero! O resultado é que quando se compara o custo por usuário, o modelo em nuvem oferece custos muito menores. Além disso, devido às restrições orçamentárias e a economia de escala, o email interno não pode disponibilizar grandes capacidades de armazenamento. É comum compararmos um email interno restrito a 300 ou 500 MB por usuário com um email na nuvem com 25 ou 30 GB. O custo por GB na nuvem é imensamente menor pela economia de escala e portanto o provedor pode oferecer, a um custo mínimo, muito mais capacidade de armazenamento.

 O custo de serviços de “client in the cloud” tende a baixar ainda mais, principalmente porque existe um disrupção no modelo de negócios da indústria de software tradicional que é o efeito Google. Para o Google, suas ofertas GAPE (Google Apps Premier Edition) não visam lucro, mas sim substanciar seu modelo de negócio baseado em receitas oriundas de advertising. É uma ação estratégica e não uma orientada à lucratividade. Se compararmos com as empresas típicas do modelo tradicional “client in the PC”, como a Microsoft, vemos que nestas sua receita vem da venda de licenças de seus softwares.  Mesmo ofertando estes serviços no  modelo em nuvem, sua fonte de receita será o serviço oferecido pelo software e não advertising e portanto não podem se dar ao luxo de chegar a preço muito baixo. É o modelo Freemium por excelencia. Sugiro lerem o livro do Chris Anderson, “Grátis” editor da revista  Wired e autor do livro “A Cauda Longa”. A tese principal do livro é que o modelo “freemium” – no qual se dá a maior quantidade de um certo produto de graça, mas se cobra pela versão premium daqueles consumidores dispostos a pagar por uma versão mais sofisticada – é um dos modelos de negócio mais quentes atualmente.

Isso se torna ainda mais real quando temos bens com um custo marginal de quase zero, como os bens digitais (músicas, filmes, conteúdo). Esses bens são oferecidos gratuitamente com a intenção de se alcançar algum outro beneficio. O que o Google faz? Oferece o GAPE em troca da expansão de um novo modelo (nuvem) onde se posiciona favoravelmente no mercado, pois este modelo impulsiona seu modelo de negócios. Com esta assimetria no cenário de negócios, fica dificil competir com o modelo tradicional.

Mas, se o email está indo para a nuvem, como isto se dará? De um dia para o outro? Na minha opinião a evolução será gradual. Os pioneiros serão as empresas de menor porte.  A razão é simples: tem custo por usuário maior pela ausência de economia de escala, e portanto o atrativo econômico de irem para a nuvem também é maior. Além disso geralmente demandam menor necessidade de customização. O modelo multitenancy do email na nuvem torna a customização mais difícil e é um complicador para empresas maiores, que além de terem um custo por usuário menor (maior escala) são mais demandantes de ambientes altamente customizados. As empresas maiores  serão, salvo exceções, late adopters deste modelo.

Surge um questionamento. Será um modelo tudo ou nada, ou seja, 100% dos emails estarão nas nuvens? Eventualmente em um futuro longinguo pode ser, mas pelo menos no horizonte previsível não. Teremos desde empresas 100% com email nas nuvens, outras onde será mais vantajoso economicamente manter seus servidores de email internamente, e outras com o modelo híbrido, com parte de seu email na nuvem e parte onpremise. Um exemplo? Uma universidade pode colocar as caixas postais de seus milhares de alunos em uma nuvem e manter internamente o email de seus professores e staff administrativo.

Mas, como proceder? Definir uma estratégia de colocar o email na nuvem não pode ser feita de forma superficial. Existem alguns cuidados a serem observados. Um deles são os custos ocultos. Embora o email na nuvem tenha um preço por usuário muito menor,  existem alguns custos que não aparecem de imediato. Exemplos? Maior uso de redes e banda larga, migração do ambiente interno para a nuvem, e não esquecer que ainda será necessario manter um staff mínimo de suporte, menor que no ambiente interno tradicional, mais mesmo assim, ainda necessário, principalmente Help Desk de nivel 1 e para gestão do interface com o provedor da nuvem.

O contrato deve ser bem analisado e alguns itens devem merecer atenção redobrada como custo para retenção longa de backup (archiving) e  cancelamento do contrato (e migração para outra nuvem). Existe também a questão legal. Suas caixas postais podem ficar armazenadas em um data center localizado em outro país? Neste caso, sob qual jurisdição as questões legais serão resolvidas? E caso haja uma investigação forense, como os dados poderão ser disponibilizados?

Quando uma informação é armazenada em uma nuvem, em última instância será armazenada em um servidor e um dispositivo de armazenamento residente em algum local físico, que pode ser em outro país, sujeito à legislações diferentes. Além disso, por razões técnicas esta informação poderá migrar de um servidor para outro servidor, ambos em países diferentes. Nada impede que a lei de um destes países permita o acesso à estas informações armazenadas, mesmo sem consentimento de seu “dono”. Por exemplo, a legislação antiterrorista ou de combate à pedofilía em diversos paises permite o acesso a informações pessoais, sem aviso prévio,  em caso de evidências legais de atos criminosos. A questão é que o conceito de computação em nuvem é recente e a legislação em vigor ainda mal entendeu a Internet e está muito mais distante de entender a computação em nuvem. Ainda está no paradigma da época em que os PCs viviam isolados e no máximo se trocava disquetes. Apreender um desktop para investigação forense, cujo conteúdo estará nas nuvens será totalmente irrelevante. E como obter as informações de discos rígidos virtuais, espalhados por diversos provedores de nuvens?

Um outro cuidado a mais: segurança e integração com aplicações que interajam com seu email. Enfim, entrar no mundo do email na computação em nuvem não deve ser feita de forma atropelada. Crie um projeto específico, determine claramente os objetivos (reduzir custos?), identifique seus custos internos por usuário e compare com os provedores, analise as diferenças de funcionalidade existentes entre os recursos oferecidos pelo email interno e os oferecidos pelos provedores de nuvem (como nível de disponibilidade), engaje o jurídico no processo, selecione o provedor mais adequado e estude atentamente o contrato. E boa sorte!

Bola de cristal: Cloud Computing em 2025

agosto 16, 2010

Participei de um evento muito interessante chamado Cloud Summit e após minha palestra fui questionado a opinar como o mercado de Cloud Computing deverá evoluir nos proximos anos. Como será Cloud Computing em 10 ou 15 anos? Bem, aqui vai minha opinião estritamente pessoal. Não falo em nome de meu empregador. Na minha visão o modelo Cloud Computing é um novo paradigma computacional, sustentável (ou seja, não é apenas um hype) que será o modelo dominante nos próximos anos, sucedendo os modelos anteriores, centralizado (mainframe), client-server e networking computing. Este modelo vai provocar mudanças signficativas na maneira como os fornecedores de tecnologia se engajarão com os seus clientes e vice versa. Mas, na minha opinião, a “ficha ainda não caiu”. O próprio conceito ainda está meio difuso e muitas das palestras que venho ouvindo por aí ainda causam mais confusão que exploram o potencial e, claro, as limitações do modelo. 

 O mercado de TI já passou por mudanças significativas nas últimos 40 ou 50 anos. O fim da era dos sistemas centralizados e o advento do modelo cliente-servidor provocou o desaparecimento de diversas empresas sólidas, e o surgimento de novas empresas, que dominaram grandes setores do mercado como a Microsoft no segmento de computação pessoal. Estas transformações provocaram mudanças significativas nos aspectos econômicos da TI, e trouxeram novas economias de escala. O custo de armazenamento caiu a quase zero, possibilitando que empresas como Google disponibilizassem espaço em disco gratuitamente em troca de receitas de advertising. O custo de processar uma transação eletrônicamente caiu significativamente assim como preço por GB de memória ou capacidade de processamento.

 O que imagino para os próximos anos? Cloud Computing vai canibalizar parte dos investimentos atuais das empresas em hardware e data centers, que passarão a concentrar seus investimentos nas nuvens ofertadas pelo mercado. Parte dos atuais 2,4 trilhões de dólares que se estima ser o mercado anual de produtos e serviços de TI se deslocará do modelo tradicional (venda de hardware e licenças de software) para o modelo em nuvem. Pelo menos nos próximos anos não será dinheiro novo, mas canibalização da venda de hardware e licenças de software para o modelo em nvem. Mas, na minha opinião, no longo prazo veremos uma transformação do atual modelo de ownership de investimentos em TI (capex), por serviços (opex), o que vai provocar profundas mudanças no mercado como um todo.

 Cloud Computing vai levar os patamares da economia de escala a novos valores e provocar uma onda de inovações no uso da TI. Empresas e negócios hoje limitados pela necessidade de investir previamente em recursos de hardware e software estarão livres desta restrição orçamentária e poderão inovar e ousar. O capital que hoje tem que ser reservado para adquirir computadores e softwares será liberado para a própria operação do negócio. Os riscos serão bem menores.

 Com a disseminação de Cloud Computing ou computação como utility, TI vai se tornar muito mais embutido nos próprios negócios, como hoje a energia elétrica está embutida em qualquer operação comercial ou industrial. Energia elétrica faz parte da “paisagem”, você nem lembra dela quando abre um negócio. Com o modelo de Cloud Computing o processo poderá ser similar: escolhe-se provedores e soluções tecnológicas e pronto a operação do negócio estará no ar. E, quem sabe, esta escolha será intermediada por Cloud Brokers, que escolherão as melhores alternativas de ofertas de nuvens para determinados casos. Claro, que é um cenário futurista, que poderá não ser 100% verdadeiro nos proximos dez anos, mas em quem sabe em 2025? Neste momento não terá  mais sentido falar em IT (Information Technology), mas em BT (Business  Technology). Uma implicação? Maior flexibilidade operacional. Hoje, para abrir uma filial é necessário instalar novos servidores e softwares, e montar um infraestrutura para operação destes equipamentos. Com o modelo em nuvem é só requisitar mais instâncias de recursos computacionais e mais assinaturas de softwares. Simples assim…

 Mas como eu vejo o mercado hoje? Alguns provedores de tecnologia olham este cenário com receio, pelo medo de canibalização de seus atuais modelos de negócios. Outros já reconheceram que os sinais de mudança são claros e já que a mudança será inevitável, mudemos em primeiro lugar. Aqui na IBM, Cloud Computing é visto como o futuro inevitável e a empresa já começou a se mobilizar, o que não é fácil para uma companhia de 400.000 funcionários, para avançar nesta direção.

 É um momento de muitas indefinições. Muitas empresas, as vezes simples provedores de ofertas de location se rebatizam como “Cloud Computing providers”. De maneira geral, nas fases iniciais de uma mudança de modelo surgem inúmeros ofertantes, sem sustentação econômica, que com o tempo vão sendo expurgados pelo próprio mercado.

 Provavelmente também veremos diversos novo modelos de negócio de ofertas de Cloud. O nome Cloud esconde uma ampla gama de serviços diferentes, como IaaS, PaaS ou SaaS. Cada um deles demanda recursos e estruturas de tecnologias diferentes. Por exemplo, uma oferta de nuvem publica IaaS, como a Amazon, é voltada para mercado de massa. As nuvens publicas são altamente padronizadas e massivamente compartilháveis e não são as mais adequadas para serviços especializados, que exigem alto grau de customização às demandas de deteminados clientes. Estas nuvens tratam seus clientes de forma quase anônima, como hoje fazem as telcos, sem necessidade de conhecer mais a funbo as necessidades e demandas de cada um deles. A margem obtida de cada cliente é pequena e portanto precisam de altissimo volume de clientes para serem rentáveis. Demandam, por sua vez, imensos recursos computacionais para conseguirem ganhos de escala suficientes para se manterem no negócio. É um mercado para poucos e grandes provedores.

 Um outro modelo inteiramente diferente é a empresa que se propõe a ofertar uma nuvem privada para um determinado cliente. Uma nuvem privada cria um novo modelo de engajamento entre a área de TI da empresa e seus usuários. A área de TI deixa de ser um centro de custos e passa a ser um provedor de serviços financiado pela utilização dos recursos computacionais ofertados às unidades de negócio da companhia. Um provedor de TI que se proponha a ajudar seus clientes a construirem nuvens privadas deve ter profundo conhecimento não só do conceito de nuvens, mas adotar tecnologias adequadas e modelos e práticas consultoria que ajudem o cliente a migrar para este modelo. É hoje o campo principal do foco de atuação em Cloud Computing da IBM.

 Portanto, quando alguém me pergunta qual melhor opção de Cloud, comparando Amazon, Google, Microsoft ou IBM, não existe uma resposta única, pois são bichos inteiramente diferentes.

 Mas, o que podemos arriscar e prever? Engraçado que sempre ouço perguntas do tipo “qual o futuro da tecnologia x” como hoje me perguntam sobre Cloud Computing. Na economia, na politica e na tecnologia existe a tendência de se alimentar o sonho que é possível ver o futuro antes que ele aconteça. O risco de errar é grande. Uma vez li, a tradução é claro, do “Nostradamus Vaticinia Code”, o livro de profecias de Michel de Nostradame, datado de 1629, que fala de um inevitável fim do mundo. Até agora nada deu certo, embora possamos interpretar suas profecias da maneira que quisermos. Ninguém previu a queda do muro de Berlim e suas consequencias para o mundo. Bill Gates achava em 2004 que o spam desapareceria em dois anos. Portanto falar de futuro é puro achismo, mas vou me arriscar a receber muitos apupos e tomates:

 1)     Com o modelo de Cloud Computing a indústria de TI vai passar do modelo de ownership para services-centric. Os investimentos em produtos e serviços de TI continuarão, mas as empresas os usarão no contexto de serviços. A idéia é “será que eu quero uma máquina de lavar ou quero minha roupa lavada?”. Assim, cada vez mas as empresas dependerão de provedores externos para suprir suas soluções de tecnologia, como hoje dependem de provedores externos para suprirem sua demanda de energia elétrica.

2)     Os modelos de negócios da indústria atual de TI vão se transformar da venda de produtos de hardware e licença de softwares para oferta de serviços, onde o hardware e software estarão embutidos no próprio serviço.

3)     Os ciclos de venda da indústria de TI estarão muito mais alinhados com as demandas dos negocios dos seus clientes do que de seus próprios ciclos de marketing e venda. Hoje as empresas de tecnologia anunciam novos modelos de hardware e novas versões de software sem maiores vinculos com as demandas do mercado. No contexto services-centric a força motriz para os ciclos de novos produtos e serviços virá basicamente do mercado.

4)     BPO (Business Process Outsouring) também serão serviços ofertados em nuvem. Ou sejam, serão dinâmicos em suas ofertas, de foma similar aos recursos solicitados em nuvens publicas. Em vez de contratos de cinco a dez anos veremos contratos Pay-as-you-go.

5)     Empresas com nuvens privadas podem agregar-se em torno de nuvens colaborativas, atuando em sinergia para determinados setores de indústria.

6)     Cloud Broker. Negócios que interagirão com os provedores de ofertas de nuvens e identificarão para cada cliente, a melhor oferta de serviços de nuvem. Provavelmente construirão uma camada de interface padrão que lhes permitirá acessar e interoperar com qualquer nuvem.

7)     PasS será o novo campo de batalha das tecnologias de middleware. Quem dominar o contexto das PaaS terão a primazia de definir o padrão de fato dos novos middlewares para Cloud.

8)     Em dez anos o modelo Cloud Computing será o modelo dominante e o próprio termo deixará de ser usado. Será o modelo computacional de uso corrente e portanto não precisará mais ser diferenciado. Hoje ninguém fala mais em computação pessoal ou cliente-servidor. Será o mesmo com Cloud Computing.

9)     E não chegaremos lá via “Big Bang”, mas será uma evolução lenta e gradual, acelerando-se à medida que o conceito se solidifique e mais e mais casos de sucesso venham a público.

 Conclusão? Cloud Computing terá um profundo efeito em como TI será adquirido, entregue e consumido. Novos modelos de negócios substituirão os tradicionais modelos de venda de hardware e licenças de software. Em vez de compradores de ativos os usuários serão “computing subscribers”, trocando investimentos em capital por budgets voltados à operação. Um novo mundo, com certeza.

Alguns cases reais de utilização de Cloud Computing

agosto 9, 2010

Em diversas palestras sou solicitado  mostrar alguns cases reais de uso de Cloud Computing. Pensando um pouco, vou listar alguns aqui que me parecem bem interessantes e que foram desenvolvidos em parceria com a IBM. Um primeiro exemplo de aplicação em nuvem é o que foi desenvolvido em parceria com a Universidade de Pretoria, na África do Sul

Esta universidade mantém um grupo de pesquisas chamado de Computational Inteligence Research Group (CIRG) que atua focado no desenvolvimento, teste e implementação de algoritmos de inteligência computacional, aplicados na resolução de problemas do mundo real. O CIRG possui cerca de 50 pesquisadores e estudantes. 

 A inteligência computacional (IC) é um subconjunto da inteligência artificial, consistindo de algoritmos e técnicas que combinam elementos de aprendizado e aprendizado para criar softwares, que são, em alguns aspectos, inteligentes. Como exemplos de uso temos redes neurais, computação evolucionária e lógica fuzzy. As aplicações baseadas em IC são aplicadas em problemas como otimização de processos de engenahria, roteamento de linhas de comunicação, pesquisa médica, mineração de dados e assim por diante. No decorrer do tempo, o CIRG desenvolveu uma biblioteca de inteligência computacional, chamada de CIlib, composta de um framework de compontes escritos em Java.

 O problema enfrentado pelo CIRG é comum a muitas universidades: os pesquisadores e estudantes precisam desenvolver seus trabalhos usando  computadores. Os algoritmos de IC demandam massivos recursos de computação. Para obterem resultados estatisticos signficantes na aplicação dos algoritmos, são necessários milhares de experimentações, usando-se diferentes parâmetros e tipos de problemas. Cada teste pode levar dias ou semanas, havendo inclusive situações que demandaram meses para computar o algoritmo, usando uma workstation 24 horas por dia.

 Uma solução paliativa foi rodar os experimentos em mais de uma workstation, em paralelo. Conseguiu-se um maior throughput, mas esbarrou-se no problema do número de workstations disponíveis, gerando “colisões” entre os estudantes, na disputa por estas máquinas.

 O grande problema era dividir as cerca de 50 workstations pelos experimentos, quando cada um dos 50 estudantes e pesquisadores requisitando de 5 a 10 workstations ao mesmo tempo. Além disso, para rodar em paralelo, da forma mais eficiente possível os estudantes e pesquisadores gastavam parte do tempo otimizando o algoritmo para melhorar o seu despenho neste cenário, em vez de otimizar a eficiência da inteligência computacional do algoritmo, ou seja, sua proposta original.

 O projeto de Computação em Nuvem permite agora que os estudantes e pesquisadores reservem e usem as workstations, de forma dinâmica. Os experimentos não reservam mais uma ou mais máquinas especificas, mas requisitam determinada capacidade e o sistema, de forma automática, provisiona os recursos necessários.

 Para operar de forma paralela em várias workstations, o sistema de nuvem utiliza o Hadoop. Com o Hadoop o sistema cria multiplas réplicas, distribuídas pelos diversos nodos da nuvem, retirando do programa a ser rodado a maior parte das tarefas relacionadas com a computação paralela. Estas tarefas ficam a cargo do próprio Hadoop. Assim, o estudante submete um único job, que o Hadoop distribui pelos nodos provisionados (em múltiplas máquinas virtuais Xen), executa-os nestes nodos e retorna o resultado, de forma única e consolidada.

 Os benefícios obtidos com o uso da Computação em Nuvem e com Hadoop foram:

 a)     Os estudantes não precisam mais saber de antemão que workstations estarão disponiveis em tal momento. A nuvem permite que os estudantes reservem o período de tempo e a quantidade de recursos computacionais que serão necessários para rodar os experimentos.

b)     Os estudantes não precisam mais perder tempo checando se a configuração de determinada workstation está adequada em termos de versão de software e biblioteca CIlib. A nuvem provisona e aloca os recursos de forma dinâmica, inclusive com as versões de softwares adequadas.

c)     Os estudantes não tem mais que gastar tempo liberando os espaços e recursos alocados às workstations, para disponibilizá-las para os outros experimentos que rodarão a seguir. A nuvem, ao encerrar o experimento, libera todos os recursos alocados a ele.

d)     Os tempos dos experimentos reduziram-se signficativamente, de semanas para dias. 

e)     Os estudantes e pesquisadores concentram seu tempo na eficiência do algoritmo e não nas questões secundárias de configurações de máquinas, reserva de recursos, etc.

 Um outro exemplo interessante de uso de Computação em Nuvem foi o desenvolvido com o pólo tecnológico de software da cidade de Wuxi, cerca de 150 quilometros de Shangai, na China. Esta cidade criou um parque tecnológico, oferecendo entre outras vantagens incentivos fiscais. Mas, o desafio das start-ups que se interessaram em se instalar no parque era o alto investimento prévio para a infraestrutura de TI que eles precisariam para desenvolver seus produtos. É um dilema que afeta todas as start-ups: obter capital para investir em servidores e softwares antes de começarem a obter receita com seus produtos.

 Para endereçar esta questão, o governo da cidade e a IBM desenvolveram um data center baseado em nuvem computacional. Desta maneira as start-ups provisionam servidores virtuais para seus desenvolvimentos, sem terem que arcar com inevstimentos em infraestrutura. A tecnologia oferecida às empresas são máquinas virtuais baseadas em Linux e um conjunto amplo de ferramentas de desenvolvimento e testes da família de produtos Rational. Um paper mais detalhado pode ser acessado em ftp://public.dhe.ibm.com/common/ssi/ecm/en/dic03005usen/DIC03005USEN.PDF

 Um terceiro exemplo é a infraestrutura usada por um projeto interno da IBM, de incentivo a inovação, denonimado Technology Adoption Program (TAP). Este programa faz parte de um conjunto bem amplo de  iniciativas que exploram o conceito de inovação aberta e colaborativa dentro da IBM. A base do TAP é o conceito de comunidade e crowdsourcing.

 A propósito do assunto crowdsourcing, sugiro a leitura de um livro muito legal, chamado “Crowdsourcing, o Poder das Multidões”, de Jeff Howe. No livro ele descreve muitas experiências interessantes que mostram como amadores tem feito contribuições sem precedentes para as ciências. Aliás, “amadorismo” me parece muito mais um termo criado por classes profissionais para proteger a si mesmo…Afinal eles são profissionais e os outros que se atrevem a entrar em sua seara são simples amadores. Para eles profissionalismo é seriedade e amadorismo simples brincadeira.

 Mas será que isto ainda  tem valor? Em uma época de participação em massa na Internet precisamos redefinir o termo “amador” e “amadorismo”. Um químico sem treinamento prévio em biomedicina pode gerar uma inovação notável neste ramo. Um médico ou um arquiteto podem escrever um software fantástico e para isso não precisam ter formação acadêmica em ciências da computação.  Bem, agora como opinião pessoal, não concordo com regulamentação da profissão de informático…Será necessário um diploma de computação para escrever um brilhante mash-up?

 A colaboração alavancada pela computação e pela Internet muda muita coisa e inclusive a nossa própria maneira de pensar, além de, obviamente, transformar por completo setores de negócio baseados em informação. Alguns exemplos: indústria de música, fotografia, vídeos, editoração (lembram-se de um negócio antigo chamado tipografia?), jornalismo… Muitas bandas já colocam suas músicas nos sites de relacionamento como Facebook e vídeos no YouTube, não mais lançando CDs. As gravadoras já estão supérfluas na cadeia de valor da música.

 Vale a pena investir algum tempo e entender como a força da coletividade está realmente remodelando o futuro dos negócios. E entender antes que seja tarde!

 Mas, voltando à computação em nuvem, o TAP é um ambiente ideal para implementar uma prova de conceito de nuvem privada, pois é um ambiente isolado, sem maiores demandas de integração com aplicações legadas. O resultado obtido foi muito positivo. Usando-se o conceito de nuvem computacional, baseado em virtualização e provisionamento automático, conseguiu-se a redução da infraestrutura de 488 servidores dedicados para 55, e de 15 para 2 administradores de sistemas, com uma redução total no custo de hardware, software e pessoal de mais de 83%. Dêem uma olhada em http://www-935.ibm.com/services/in/cio/pdf/dic03001usen.pdf.  Vale a pena pensar sobre isso, não?

Cloud Computing como Utility

agosto 2, 2010

Recebi um email interessante. Nele, um colega me perguntava porque Cloud Computing pode ser considerado similar a energia elétrica e que argumentos existem para demonstrar que Cloud Computing pode ser visto como uma utility.  Este assunto já foi debatido no livro de Nicholas Carr, “The Big Switch”, onde o autor faz uma boa analogia entre Cloud Computing e  a energia elétrica. Vale a pena a leitura.

Mas, podemos ir mais à frente e analisar quais os pontos em comum entre um serviço de utility como energia, água e telefonia e a computação em nuvem. Quais são as características básicas de um serviço de utilidades? Vamos olhar água, energia e telecomunicações como exemplo.

 Logo no início lembramos da alta dependência do serviço. Não podemos viver sem água ou energia. Basta ver os efeitos de um apagão elétrico na sociedade, os transtornos que causa. Outra característica é a confiabilidade no serviço. Água, por exemplo, ao abrirmos a torneira nossa expectativa natural é que a água caia. Não se espera que o serviço não esteja disponível. Usabilidade é outra característica. Uma torneira é muito fácil de usar. Uma tomada só necessita que se conecte  o plug do aparelho elétrico. Um celular é algo que uma criança de dois anos sabe usar para fazer uma ligação. E, outro aspecto relevante é a elasticidade. Pagamos estes serviços pelo que consumimos e sabemos que podemos consumir mais ou menos. Podemos consumir muita energia no verão carioca, com aparelhos de ar condicionado ligados 24 horas e deixar a casa às escuras quando saimos em férias.

 Para o provedor existe uma outra característica relevante que é o nivel de utilização. Ele precisa gerenciar os picos e vales pois as demandas dos usuários dos serviços de utility flutuam amplamente no tempo. Se ele mantiver uma infraestrutura configurada para  a demanda de pico vai arcar com um custo elevado. Por outro lado, se a infraestrutura for insuficiente, não irá atender à crescimentos rapidos da demanda.

 E quanto aos modelos de negócios? Basicamente as utilities cobram pelo uso (pay-as-you-use), como água e energia, ou por assinatura, como provedores de banda larga, que ofertam serviços ilimitados mediante assinatura mensal.

 Se analisarmos, para efeito de comparação, o modelo SaaS, vemos muitas similaridades com o negócio das utilities, principalmente telecomunicações. Algumas métricas das telco como ARPU (Average Revenue Per User) e churn rate ou taxa de desconexão começarão a fazer parte do vocabulários das empresas de software. A preocupação em não perder o cliente deverá ser alta, pois é muito mais caro adquirir um novo cliente que mantê-lo dentro de casa, como as operadoras de celular já descobriram. Mas, como isto tudo impactará as empresas de software? Em um primeiro momento os custos de marketing e vendas das empresas SaaS tendem a ser maiores que no modelo tradicional, basicamente devido ao fato que o modelo de assinatura (subscrição) produz receitas menores durante a fase de crescimento, por que os pagamentos são distribuidos por um período bem longo de tempo, ao invés de imediatamente, como no modelo de compra de licenças de uso. Além disso, muitos dos clientes SaaS atuais são empresas de pequeno porte, que geram receitas ou tickets médios menores que os comumente encontrados nas vendas da maioria das empresas de software tradicionais, que concentram sua atenção nos clientes de maior porte. O modelo SaaS permite a adoção pela indústria de softrware do conceito de Long Tail ou cauda longa.

 SaaS indiscutivelmente provocará mudanças na indústria de software e se o juntarmos com o conceito de Long Tail, vamos identificar novas e inovadoras oportunidades de mercado. O conceito da Cauda Longa ficou muito conhecido com o livro de Chris Anderson (“A Cauda Longa”), que resumidamente nos diz que muitos negócios baseados na Web obtém uma parcela significativa de sua receita, da venda cumulativa de um grande número de itens, cada um dos quais vendido em pequena quantidade. É um modelo econômico que contrasta com os negócios tradicionais, onde as limitações físicas das lojas impõem que estas vendam apenas uma variedade bem limitada de itens, mas que devem ser vendidos em grande quantidade. O modelo tradicional é “hit-based” ou de produtos blockbusters. Para se encaixar no Long Tail um mercado deve atender a alguns requisitos, como o valor total da cauda deve representar uma parcela significativa do mercado. No software vemos que ainda existem muitas e muitas empresas, principalmente as pequeno porte, que não adotam alguns softwares pelo seu custo de aquisição de licenças e pela necessária demanda de hardware que vem junto com o software. Esta parcela do mercado representa um pedaço substancial do mercado como um todo.

 À medida que o mercado SaaS for sendo ampliado, a lucratividade das empresas deste modelo tenderá a aumentar, pela própria escala do negócio. Também veremos novas e inovadoras aplicações voltadas para explorar este modelo. Hoje as aplicações SaaS tendem a replicar a funcionalidade dos sistemas on-premise, levando para a nuvem o que já é comumente feito nos servidores dos data centers internos das empresas. No futuro as aplicações explorarão de foma mais abrangente as potencialidades do modelo de nuvem computacional.

 Um primeiro exemplo de novas e inovadoras aplicações poderão ser encontradas na área de segurança de TI. Segurança e privacidade aparecem em primeiro lugar quando se fala em Cloud Computing. O modelo atual de segurança é basicamente sustentado pelo conceito de perímetros de defesa, com pontos de controle na entrada (contra invasões) e saídas da informação, como vigilância do conteúdo de email e canais de acesso à Web. O modelo Cloud Computing afeta este conceito, pois o perímetro deixa de existir. Assim, a segurança poderá ser embutida no proprio dado, através de criptografia, e não mais pelos controles nos pontos de entrada e saída dos perímetros de defesa. A virtualização, base do modelo de computação em nuvem, também é um novo desafio, pois a comunicação entre máquinas virtuais ocorre sem passar pela rede física de comunicações. Geralmente as tecnologias de segurança atuais adotam controles de monitoração das atividades das redes fisicas, inspecionando e filtrando o tráfego de dados. Como a comunicação entre as máquinas virtuais não toca esta rede física, o modelo em nuvem demandará novos conceitos e tecnologias.

 Que podemos concluir? Sabemos que hoje em dia não precisamos de equipamentos para gerar nossa própria eletricidade. Nós apenas plugamos os aparelhos às tomadas. Também apenas abrimos as torneiras para termos água e não precisamos de bombas e poços artesianos em cada edifício. Porque a computação não pode ser uma utility também? Já é altamente relevante para a sociedade, espera-se que os sistemas estejam sempre disponíveis e sejam de fácil utilização. Por que não podemos plugar um dispositivo  e ter acesso à aplicações, dados e serviços de computação? E pagar apenas pelo que usamos, sem necessidade de arcar com elevados custos de capital? À medida que os consumidores de TI sentirem-se cada vez mais frustrados com o tradicional ciclo de compras de licença de software, pagamentos por contratos de manutenção, e caros e demorados upgrades de versões, este modelo tenderá a se disseminar. Portanto, o modelo de computação em nuvem não é um buzzword, mas uma mudança significativa no modelo computacional, com impactos na indústria de TI como um todo.

 Claro que sair do modelo atual (ownership model) para o modelo pay-as-you-use não é feito de um dia para o outro. É uma quebra de paradigmas e toda quebra de paradigmas não flui de maneira suave, mas  enfrenta resistências e questionamentos. Mas, na minha opinião, a visão do futuro, onde o modelo dominante será a computação em nuvem, já está tomando forma. À cada dia vemos mais e mais ofertas aparecendo no mercado  e mesmo empresas líderes do modelo de propriedade estão aos poucos embarcando neste cenário. Portanto, é uma questão de tempo de não de “se” a computação se tornar uma utility.